
É sabido que nos últimos anos, a conjuntura internacional não foi propícia a grandes crescimentos.
Numa economia em recessão, Portugal destaca-se como um dos menos falados “PIIGS” (cognome inconfesso, politicamente incorreto, dado pela comunidade internacional ao conjunto de países europeus: Portugal, Itália, Islândia, Grécia e Espanha), por outras palavras, os países que sofrem de um descrédito endémico por serem considerados como economias menos competitivas e menos sofisticadas. São, no fundo, percebidos como países cuja corrupção e clientelismo os encaminha à reputação de economias débeis e propensas a maior sensibilidade a contágios que os outros congéneres europeus.
Quando a Europa espirra, Portugal torna-se pneumónico.
Após o rescaldo da maior crise internacional, gerada pela utilização desenfreada de créditos bancários sobre dívidas, ativos tóxicos e um mercado especulativo que ainda não sabe como reagir às novas realidades globalizantes, tal como a competição com mega economias emergentes, bem como um clima pautado por instabilidade política no Médio Oriente – Portugal foi sempre dos últimos a sentir as ondas de choque que percorrem as praças internacionais – algo útil, se a política aqui vigente fosse preventiva, e não reativa, como tem vindo a ser.

Ao contrário, o estilo de governação temerário, algo autista, fez com que a absurda despesa estatal fosse desconsiderada em prol de projetos mais ambiciosos (quiçá megalómanos para uma minúscula economia marginal), custos crescentes, contratos verdadeiramente leoninos, com consórcios internacionais, empresas públicas e um estilo inconfundivelmente despesista, que não priva uma elite, ligada ao poder, a um estilo de vida que cria fortunas impossíveis numa vida de trabalho.
A gestão dos dinheiros públicos tem vindo a ser, há anos, alvo das mais duras críticas de especialistas, cujas vozes e escritos são asfixiados no sortilégio da propaganda política que os editoriais noticiosos favorecem, e dos gritos futebolísticos que preenchem o horário nobre dos noticiários e as parangonas dos jornais.
Nos últimos meses, vários países socorreram-se do Fundo de Estabilização Europeu (FEE), o tal que precede a entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas Portugal, parece temer tal inevitabilidade, por talvez temer uma verdadeira revisão às contas públicas, o que poria em causa importantes interesses: nomeadamente de alguns grupos económicos e bancos que têm neste país um poder feudal.
Um país que não gosta de pensar em “coisas chatas”, mesmo que o governo seja assolado diariamente por escândalos, processos judiciais, e denúncias dentro e fora do país; um governo que parece à prova de tudo, até da acreditada derrota eleitoral, dando a entender que a maioria dos cidadãos andou a prestar atenção a assuntos mais prosaicos, celebrando o processo eleitoral com recordes de abstenção.

Um país absorto, que não se importa de ter os níveis de vida mais impossíveis para o poder de compra mais baixo da Europa, a carga fiscal mais castigadora e incongruente (vide o IVA que quer passar de 23% para 6% na prática do golfe), uma taxa de desemprego mal mascarada pela precariedade de trabalhos intermitentes a recibos verdes.
No limiar de tanta informação indigesta, e com o mote da precariedade, milhares de jovens desempregados, precários, sobre qualificados e cheios de expectativas goradas, vieram para a rua na companhia de várias gerações de cidadãos apolíticos e juntaram-se no passado dia 12 de março, nas cidades de Lisboa, Porto, Ponta Delgada e Faro, para uma pacífica demonstração de indignação com o “estado do Estado”.
Afinal o País não está a dormir.